ONE: SOHO EXCHANGE!

Sep 3, 2026

#SHUPOV #TASK

Milk tinha sorte de ter conseguido organizar um pouco mais de sua vida no início daquela semana tão incomum, ou com certeza estaria completamente sem paciência para qualquer imprevisto que surgisse em seu caminho. A ideia de ter aprendizes em seu encalço parecia interessante quando não estava fora do papel. Estava longe de odiar crianças e suas peripécias, o único grande problema era a falta de preparação para aquele tipo de trabalho, onde precisaria se dedicar não apenas à sua própria demanda como também à atenção de instruir os adolescentes que apareceriam na loja. Como poderia estar calma com tantas responsabilidades? Como poderia dar o exemplo sem perder o rumo no meio do expediente? Eram muitas coisas para se pensar e Milk temia estar despreparada para aquela tarefa.

Seus pensamentos em torno da situação eram os mais desanimadores possíveis se os listassem em voz alta, no entanto a tailandesa precisava admitir que se esquecera de um detalhe bastante importante para que aquilo fosse analisado de forma mais realista: os adolescentes em questão eram humanos e tinham suas próprias individualidades, apesar das mais inquietantes.

Seu espaço de trabalho se transformou completamente com a chegada de Theodore e Yuna na Showa Retro, desfazendo a pequena harmonia que existia entre seu ofício e suas ferramentas, porque tudo o que Milk apreciava era um trabalho regrado e solo. Theodore fazia perguntas demais e escutava de menos, rabiscava suas próprias anotações — letras quase ilegíveis, diga-se de passagem — e a interrompia em todos os momentos possíveis, curioso demais pelas funcionalidades de seu cargo. Yuna, por outro lado, exibia seu interesse de maneira diferente e menos caótica que o garoto, genuinamente dedicada ao aprendizado. Existia uma insegurança na menina em ser pega pela própria mãe que, se fosse ser sincera, quase transformou Milk em uma figura maternal junto dos outros funcionários. A confiança que a mulher criou pela menor fora tanta que até deixou que ela aprendesse a esculpir, coisa que com Theodore se tornara quase impossível; não existia paciência em nenhum lugar daquele garoto, ela pensava.

Enquanto repassava seus conhecimentos em música e carpintaria naquele dia em especial, Milk também se lembrava da época em que parecia um espírito obsessor no ateliê do avô, pendurada em seu ombro observando o trabalho de luthier do mais velho. Jamais iria se comparar ao homem e suas técnicas aperfeiçoadas pelo tempo de trabalho, não chegava aos pés daquela maestria, mas poderia se colocar um pouco no lugar daquelas crianças que experenciavam a rotina da loja e, especificamente, os consertos de Milk.

Tirando todas as tentativas de acobertar Yuna da mãe controladora e de afastar Theodore de problemas dentro da loja, Milk havia se divertido um pouquinho com a mudança de cotidiano. Aprendeu o olhar da adolescência que já havia esquecido, viu de perto as interações de seus pupilos com os clientes, principalmente quando estes chegavam com instrumentos para que Milk os averiguasse. De maneira alguma sentiria falta das implicações e das dores de cabeça que era ter dois monstrinhos pulando de um lado para o outro pela loja, mas poderia falar que a ausência dos aprendizes deixaria sua marca pessoal.

Ela esperava que ninguém tivesse aquela ideia novamente.